GRAÇA

 

 

 

A minha família tem uma ancestral que se chamou Graça, que era bem conhecida pelo seu maravilhoso canto e a sua incrível beleza. Quando ela tinha 20 anos, estava para se casar com um jovem chamado Nataniel, que tinha a mesma idade que ela e a família tinha a mesma riqueza que a dela. Mas infelizmente, o jovem com quem Graça iria se casar acabou se afogando e morreu. Graça ficou tão traumatizada com a morte prematura do rapaz que ficava andando pela casa com o seu vestido de noiva e cantando hinos religiosos. Tinha dias em que ela se sentava na sala de leitura, perto da janela, e ficava olhando lá fora enrolando os seus negros cabelos nos dedos, como se estivesse esperando Nataniel chegar.

Eventualmente, Graça sofreu algum tipo de trauma psicológico e começou a se afastar das pessoas e passou a não falar com mais ninguém, exceto as crianças que moravam em volta da casa e uma das empregadas, Elisa. Ela chegou a um ponto em que se recusava a ver amigos ou parentes distantes, ou qualquer um que não fosse da família.

Um dia, quando ela tinha 23 anos, ela subiu ao quarto dela e não saiu mais. Quando Elisa entrou para ver qual era o problema ela soltou um grito que atravessou a casa inteira e que até quem estava fora da casa pode ouvir Elisa gritando.

Graça tinha quebrado o espelho que tinha na sua penteadeira, e com um dos cacos de vidro cortou os seus pulsos. Ela estava deitada no chão em cima de uma possa de sangue que saía dos seus pulsos, com os seus olhos verdes abertos e fixos nos cortes nos seus braços, um pouco acima dos cortes nos pulsos, na forma de estrelas...

Quando eu tinha 17 anos, a minha avó me levou ao cemitério onde está o túmulo de Graça. Todos os túmulos estavam limpos e arrumados. Nós achamos o túmulo de Graça e fomos dar uma olhada. Claro que tendo 17 anos, uma garota maravilhosa que estava sentada no chão perto do túmulo chamou a minha atenção. Ela estava com os seus cabelos negros soltos ao vento e os seus olhos eram verdes como esmeraldas. Nós sorrimos um para o outro. Ela tapou a boca com uma mão para tossir e com a outra pegou um lenço na bolsa que estava ao seu lado. Quando ela fez isso eu pude ver cicatrizes no seu pulso. Eu senti pena dela, pois provavelmente tinha tentado cometer suicídio. Mas a pena foi rapidamente substituída por medo e por um arrepio que subiu a minha coluna quando eu vi que no seu braço, acima das cicatrizes do pulso, tinha mais algumas cicatrizes, na forma de estrelas...

 

Fernando Henrique - Ribeirão Preto - S.P.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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